Diario de Pernambuco
Recife, 26 de Janeiro de 2006.
A CADELA COR-DE-ROSA
Humberto França
Escrito
Chefe de Projetos Especiais da Fundação Joaquim Nabuco – Brasil (www.fundaj.gov.br)
Este é o título de um poema de Elizabeth Bishop, a escritora norte-americana que melhor conheceu o Brasil, tendo residido durante vinte anos em Petrópolis e Ouro Preto. E recebeu do Governo brasileiro, a comenda Ordem de Rio Branco. Aclamada como a maior poetisa americana do século vinte, ganhadora do Prêmio Pulitzer de 1955, ela estudou no aristocrático Vassar College, trabalhou na Biblioteca do Congresso, em Washington, foi professora em Harvard e Seatle. Filha de milionários, ela teve uma infância terrível. Sua mãe enlouqueceu. Ficou órfã aos onze anos e foi educada pelos avós. A escritora que começou a escrever aos 16 anos foi discípula da poeta Mariane Moore, de quem recebeu incentivos para prosseguir na sua carreira literária. Elizabeth Bishop era admirada por críticos do quilate de Richard Wilber, Harold Bloom e Octávio Paz, que chegou a afirmar: “Ouvi-la não é ouvir uma lição; é um prazer verbal e mental, tão grande quanto uma experiência espiritual”.
Bishop teve uma existência trágica e certa vez confidenciou a seu amigo, Robert Lowell: “Quando você escrever meu epitáfio, não deixe de dizer que eu fui a pessoa mais solitária que viveu”. Genial. Alcoólatra. Lésbica. A poeta escreveu páginas ontológicas, descrevendo a vida no Rio de Janeiro e nas pequenas cidades onde residiu. Ela era uma epistógrafa capaz de escrever 40 cartas num só dia. O volume de suas correspondências, Uma Arte: As cartas de Elizabeth Bishop é uma espécie de diário onde a escritora descreve a sua vida privada, o descanso e o trabalho, os relacionamentos afetivos e a convivência com personalidades da política e das Letras brasileiras. As suas cartas também revelam os problemas vividos pelo povo, a escassez de alimentos, a crise política antes do Golpe de 1964; a miséria e a ignorância da população marginalizada. Enfim, uma crônica do Brasil das décadas de 1950 a 1970.
Por acaso, Elizabeth, em 1951, encontrou o Brasil quando após receber uma bolsa de pesquisas, resolveu visitar a América do Sul. No Rio de Janeiro, conheceu e se apaixonou pela milionária, Lota de Macedo Soares, dona de uma personalidade forte, colaboradora do Governo de Carlos Lacerda, idealizadora e responsável pela construção do Parque do Flamengo. O seu duradouro relacionamento terminou quando Lota sentindo-se abandonada, suicidou-se em Nova Iorque, em 1967.
Uma das suas descobertas no Brasil foi o livro de Helena Mohrley, Minha Vida de Menina, que é uma espécie de diário de uma adolescente mineira, do final do século dezenove. Ela traduziu o livro, que foi lançado nos Estados Unidos. A edição da obra Brazil, pela Editora Time-Life, trazendo um excelente material de Bishop, demonstra juntamente com seus textos, que a escritora alcançou uma compreensão da vida, da história, das coisas e do espírito da gente brasileira. Os seus “poemas brasileiros” estão entre os melhores da sua magistral produção. Era também uma viajante incansável. Em 1961, fez uma excursão pelo Rio Amazonas. Mais tarde navegou pelo Rio São Francisco e com Aldous Huxley, visitou o Pantanal.
Conhecendo bem a poesia brasileira e dominando com maestria a língua portuguesa, Elizabeth traduziu obras de alguns dos maiores poetas brasileiros, entre eles, os pernambucanos: Mauro Mota, Joaquim Cardoso, Manuel Bandeira, João Cabral de Mello Neto. Traduziria também poemas de Cecília Meireles, Carlos Drummond de Andrade e Jorge de Lima. A sua obra An Anthology of twentyth-century Brazilian Poetry, editada por Bishop e publicada em 1972, é considerada a melhor antologia da nossa poesia, em inglês. Conta com exímias traduções feitas por mestres da literatura norte-americana, M.S. Merwin, James Merril, Galway Kinnell.
A sua poderosa obra poética, moderna e “tradicional”, equilibrada e vertiginosa, e ao mesmo tempo estremecedoramente bela, tornou-se um “clássico” da literatura dos Estados Unidos. Os livros, Norte e Sul (1946), Uma Primavera Fria (1955), seus trabalhos inicias, se completariam com Problemas de Viagem ( Brasil), (1965), e Poemas Novos (1979). Notam-se as suas experiências brasileiras nos poemas: A Chegada a Santos; Santarém e A Cadela Cor-de-rosa( The Dog Pink), um dos mais belos da sublime produção de Elizabeth Bishop.
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